Capítulo 2. Youssef
Agora você é meu amigo. Youssef, você é meu amigo para sempre. Sei que vou te visitar no Hotel Montparnasse quando chegar em Casablanca: e sei que vou lembrar de ti sempre que estiver de novo em Montparnasse, a um voo Ryanair de distância: e mesmo que eu vá pro Auberge de Jeunesse quando chegar, ou pra um show da Latifa Raafat, antes de pegar o trem pro city center [fala-se cití centér, com sotaque francês-marroquino], vou passar no Montparnasse, e espero que você não esteja bebendo uma Fanta Laranja hoje, mas um... chá... ou uma Fanta Laranja, ok! Você pode, com sua cara simpática e seu boné de thug. Pois Casablanca é a Paris marroquina, é sim, Youssef, pois se é você quem diz, então é! Tem que ser! Agora você é meu amigo, então se você diz que é, e eventualmente não for, eu mesmo pessoalmente vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance para que seja, sim, e vou conseguir. Você disse, então tem que ser. Casablanca é a Paris marroquina, pois você disse, e você tem essa cara simpática. Como queira. Youssef! O que você quer, Youssef? Quer que eu organize suas finanças mensais? Quer que eu te arrume alguma coisa do Brasil? Eu posso levar pra ti: agora você é meu amigo. E jamais vai me lançar algum olhar hostil de novo. Mas sei que vou ver seu olhar hostil - “mais mau” do que um bandido de As Mil e Uma Noites - toda vez que você estiver olhando para algum novo turista que acabou de chegar meio perdido num Petit Taxi diante de um simples hotelzinho que, sendo no Marrocos, parece esconder perigos inimagináveis. São quase as 08h e você ainda dorme Youssef, Fanta Laranja vazia do lado, cobertor pequeno que não cobre teus pés: você deve ter acordado às 05h25 para fazer a primeira oração muçulmana do dia e depois voltou a dormir. Não foi? Eu mesmo despertei, por estar dormindo com a janela aberta, com a primeira chamada para a oração às 05h30, amplificada como um chamado do espaço nas minaretes de Casablanca, que me fazem acordar no Marrocos como se tivesse caído dentro de um sonho sem saber sair. O problema é que enquanto Youssef dorme, acordado no Hotel Montparnasse só está um funcionário de uns 50 anos de idade que tem o olhar mais hostil de todo o Marrocos. Ele não tem apenas esse olhar - ele é hostil de fato, e tomou a seguinte atitude para comigo: ele me viu sair do hotel, quando fui buscar água mineral na padaria da frente como um típico jovem latino-americano acostumado a ter receio de água não-potável que sai da torneira; ele me viu, na rua, e quando entrou com as sacolas de pães, os quais serviria no café da manhã que iniciaria às 08h30 - horário de Youssef ir embora - ele trancou a porta do hotel! Trancou a porta! De propósito, para me deixar lá fora, enquanto descera de novo para a cozinha, enquanto Youssef dormia o sétimo sono (chegando no oitavo), enquanto eu ia da padaria para um bar mais distante, na outra esquina, para lá sim encontrar água mineral, Aïn Atlas, Sidi Ali, tanto faz. Só pode ser uma das duas. 8 Dh! E eu, com 8 Dh a menos no bolso, tive que ficar batendo na porta! Porque aquele cara me viu sair e a trancou! Que gesto acolhedor daquele marroquino... Quando falo que Marrocos é perigo iminente, não duvidem! São As Mil e Uma Noites, não é diferente disso não, nem um pouquinho! Não tinha sequer uma campainha. Será que se eu bebesse água da torneira marroquina e não saísse para comprar eau minerale [fala-se ô minerrále, com sotaque francês-marroquino], o funcionário de hotel mais hostil do mundo deixaria a porta destrancada para mim, para que se abrisse suavemente com um leve empurrão como costumava abrir antes que ele quisesse me atacar daquele jeito? Esse podia ser, sim, um dos ladrões do Ali Baba, e, aliás, provavelmente era, pior do que os outros 39 juntos. Tive medo dele, medo mesmo. Será que ele também se desmancharia num sorriso acolhedor e docemente amigável caso eu iniciasse uma conversa direta com ele? Tive que ficar batendo na porta com a mão, até que Youssef acordou. Pardon pour te faire reveiller, mon ami Youssef. Mas é bom ver que mesmo ao ser acordado assim, com porradas na porta, depois de uma noite desconfortável de sono bebendo Fanta Laranja, você pode ter o melhor humor do mundo quando vê uma cara conhecida. Mesmo que essa cara seja conhecida há somente umas 8, 10 horas... Bonjour mon ami, ça va bien?! Pas de problème. Pas du tout. E o check-out, é que horas? Ao meio dia, midi, midi! Você sabe onde posso encontrar uma máquina de escrever? Sim, vou anotar num papel pra você. VOU TE DIZER, TAMBÉM, ONDE É MAIS BARATO. Vou te dizer, também, onde você será bem tratado, vou te dizer o meio mais eficiente de chegar lá com transporte público pra você não gastar sua grana com os Petit Taxis. Merci, Youssef, merci beaucoup, tu es mon ami maintenant.
Da outra vez, duas marroquinas vestidas com o tom de lilás mais publicitário de toda a África – Inwi! – me ofereceram um chip gratuitamente. Gratuito. No Marrocos. Isso mesmo. Logo que desci no aeroporto de Marrakech. Aquele sorrisinho estrategicamente envergonhado de quase toda jovem marroquina. A Inwi oferece isso como uma forma de dizer Welcome. Bienvenue au Maroc, Monsieur: e o sorriso, ou melhor: o sorrisinho. Ou ainda, como diria o Arnaud, "a sonrisa". Obrigado, claro que aceito, anota aí meu nome e meu passaporte na sua prancheta e eu levo estes dois chips comigo, não é o que vocês querem? Não couberam no meu celular, ambos os chips, mas seriam úteis mais adiante naquela mesma viagem. Okay. Peguei um táxi do aeroporto à praça Djemaa El-Fna, um Grand Taxi, que me pegou uns 7 Euros = 70 Dh. Levaria um tempo até que eu pudesse começar a saber dos preços e da malandragem barra pesada da negociação no Marrocos. Se você pestaneja no Marrocos, pode perder todo o seu dinheiro e ainda sair sorrindo para o ladrão como se ele estivesse te fazendo um favor, e sair convencido de que precisa depositar mais grana pra ele na semana seguinte, quando conseguisse voltar para sua casa, após mendigar na rua, ou pedir ajuda no consulado. Era um dia ensolarado e, de verdade, assim que pisei do lado de fora do aeroporto e aquele sol me banhou, inundando todo o ambiente, juntamente à atmosfera milenar de Marrakech, que me pegou de assalto e que não posso descrever, senti que estava sendo definitivamente curado. Sabia que estava, e meu corpo respondia entrando num estado imediato de imenso prazer e bem-estar. O que restava em mim da doença que me deixou miserável por uns dias na Itália, de Veneza a Roma, me dizia adeus oficialmente, com um ofício declarando a partida, e assinava em baixo, com carimbo do consulado marroquino, conforme o Grand Taxi avançava e eu olhava a paisagem ao redor sem saber o que esperar do Marrocos, ainda, mas já sentindo algo, já esperando, esperando-vendo, aquelas muralhas com cor de terra clara, árabes e berberes de bicicleta, e tome sol no asfalto em pleno inverno! Abre o casaco, esse casaco cheio de bactéria que ficou fechado o tempo todo em Veneza, em Florença, em Napoli, em Roma, te protegendo do frio enquanto você adoecia. Dali em diante, só saúde! As bactérias do casaco pulavam para fora da janela do Grand Taxi como suicidas, sabendo que não tinham mais lugar ali, e eram atropeladas por outros Taxis, Grands et Petits, no asfalto marroquino. Quanto perigo no ar! Dali em diante, era só saúde (e perigo), e um apetite indomável, incontrolável, desmesurado, talvez para recuperar toda a energia que eu havia perdido (e sobreviver ao perigo) – o que me faria deixar muitos Dhs em restaurantes e lanchonetes por todo o Marrocos, tagine, couscous, alubia, crepe, amlou, sabonete de argana, pastilla!, que mais tem aí?, e continuar comendo por alguns minutos, pensar em pedir uma porção extra, quando Arnaud já tinha terminado seu prato e enrolava seu cigarro com aquela cara francesa meio dormida e engraçada. Ir para o Marrocos é mesmo correr perigo. Mas não deixe de ir, e depois me conte. Se você for um jovem prestes a se converter ao cristianismo, com as Sagradas Escrituras no colo e pelos terraços a fora, tome cuidado com árabes furiosos que vêm te fitar de noite nos quartos dos albergues que estão escondidos nas profundezas intrincadas das medinas milenares desse país terrivelmente intenso. Se isso acontecer, depois você vai ter medo de voltar no Marrocos sozinho, e dormir em pequenos hotéis vazios de ruas ermas em Casablanca, a Paris marroquina, com esse cara chamado Youseff lá embaixo, e um barulho de moeda caindo sempre mais uma vez no quarto de cima.
Da outra vez, duas marroquinas vestidas com o tom de lilás mais publicitário de toda a África – Inwi! – me ofereceram um chip gratuitamente. Gratuito. No Marrocos. Isso mesmo. Logo que desci no aeroporto de Marrakech. Aquele sorrisinho estrategicamente envergonhado de quase toda jovem marroquina. A Inwi oferece isso como uma forma de dizer Welcome. Bienvenue au Maroc, Monsieur: e o sorriso, ou melhor: o sorrisinho. Ou ainda, como diria o Arnaud, "a sonrisa". Obrigado, claro que aceito, anota aí meu nome e meu passaporte na sua prancheta e eu levo estes dois chips comigo, não é o que vocês querem? Não couberam no meu celular, ambos os chips, mas seriam úteis mais adiante naquela mesma viagem. Okay. Peguei um táxi do aeroporto à praça Djemaa El-Fna, um Grand Taxi, que me pegou uns 7 Euros = 70 Dh. Levaria um tempo até que eu pudesse começar a saber dos preços e da malandragem barra pesada da negociação no Marrocos. Se você pestaneja no Marrocos, pode perder todo o seu dinheiro e ainda sair sorrindo para o ladrão como se ele estivesse te fazendo um favor, e sair convencido de que precisa depositar mais grana pra ele na semana seguinte, quando conseguisse voltar para sua casa, após mendigar na rua, ou pedir ajuda no consulado. Era um dia ensolarado e, de verdade, assim que pisei do lado de fora do aeroporto e aquele sol me banhou, inundando todo o ambiente, juntamente à atmosfera milenar de Marrakech, que me pegou de assalto e que não posso descrever, senti que estava sendo definitivamente curado. Sabia que estava, e meu corpo respondia entrando num estado imediato de imenso prazer e bem-estar. O que restava em mim da doença que me deixou miserável por uns dias na Itália, de Veneza a Roma, me dizia adeus oficialmente, com um ofício declarando a partida, e assinava em baixo, com carimbo do consulado marroquino, conforme o Grand Taxi avançava e eu olhava a paisagem ao redor sem saber o que esperar do Marrocos, ainda, mas já sentindo algo, já esperando, esperando-vendo, aquelas muralhas com cor de terra clara, árabes e berberes de bicicleta, e tome sol no asfalto em pleno inverno! Abre o casaco, esse casaco cheio de bactéria que ficou fechado o tempo todo em Veneza, em Florença, em Napoli, em Roma, te protegendo do frio enquanto você adoecia. Dali em diante, só saúde! As bactérias do casaco pulavam para fora da janela do Grand Taxi como suicidas, sabendo que não tinham mais lugar ali, e eram atropeladas por outros Taxis, Grands et Petits, no asfalto marroquino. Quanto perigo no ar! Dali em diante, era só saúde (e perigo), e um apetite indomável, incontrolável, desmesurado, talvez para recuperar toda a energia que eu havia perdido (e sobreviver ao perigo) – o que me faria deixar muitos Dhs em restaurantes e lanchonetes por todo o Marrocos, tagine, couscous, alubia, crepe, amlou, sabonete de argana, pastilla!, que mais tem aí?, e continuar comendo por alguns minutos, pensar em pedir uma porção extra, quando Arnaud já tinha terminado seu prato e enrolava seu cigarro com aquela cara francesa meio dormida e engraçada. Ir para o Marrocos é mesmo correr perigo. Mas não deixe de ir, e depois me conte. Se você for um jovem prestes a se converter ao cristianismo, com as Sagradas Escrituras no colo e pelos terraços a fora, tome cuidado com árabes furiosos que vêm te fitar de noite nos quartos dos albergues que estão escondidos nas profundezas intrincadas das medinas milenares desse país terrivelmente intenso. Se isso acontecer, depois você vai ter medo de voltar no Marrocos sozinho, e dormir em pequenos hotéis vazios de ruas ermas em Casablanca, a Paris marroquina, com esse cara chamado Youseff lá embaixo, e um barulho de moeda caindo sempre mais uma vez no quarto de cima.
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