Capítulo 1. Uma noite em Casablanca
Youssef dorme no sofá do hall com uma lata vazia de Fanta Laranja sobre um banquinho de madeira e uma manta de lã cobrindo seu corpo exceto a cabeça e os pés.
Havia dito na noite anterior que sairia do hotel às 08:30 da manhã. Estamos a 2 minutos das 8 horas, e ele está lá, no seu sétimo sono, sem perspectiva alguma de acordar. Olho para ele e nada, nada sugere que ele esteja prestes a acordar em algum momento em breve.
Meu amigo Youssef, que agora deixa o balcão vazio. Não posso dizer realmente que há alguém mais hospedado nesse hotel além de mim - isso é um mistério. O silêncio é total - sepulcral. No hall só há esse marroquino sonolento e simpático chamado Youssef.
Saí do hotel, para ver se havia água mineral para vender na padaria da frente. Duas jovens muçulmanas assistiam a uma pregação na televisão, e antes mesmo que dissessem não-em-árabe eu já tinha notado a geladeira totalmente vazia perto delas. Vazia, e ligada na tomada! Qual o sentido disso? Não queira saber. Só tinha pão, numa cesta enorme, e olhe lá! Se reclamar, não vendemos nada pra você, pois estamos muito bem aqui na companhia uma da outra, não nos importamos com clientes, aliás, estes só podem mesmo nos importunar. Nossa padaria é mais deserta que o Saara, e assim estamos felizes. Nada de água mineral pra você. Youssef bebe água da torneira. Me lembro que da outra vez alguém havia me dito que não era bom beber a água da torneira no Marrocos. Na noite anterior, bebi, no quarto, e tinha mesmo um gosto péssimo. Tampouco tinha água mineral para vender no hotel. Youssef tinha feito uma cara para mim, simpática, sim, mas de quem queria dizer: vender água mineral? Isso seria estranho. Não posso entender por que você precisa disso. Youssef, esse marroquino super simpático que me indicou onde comprar um chip da Inwi para ter 3G no celular, pois o hotel não tinha o wifi funcionando. O wifi não funciona, o wifi não funciona, dizia Youssef com a cara mais simpática que posso recordar ter visto naquela viagem. Ele mesmo fez tudo no telefone para mim quando retornei ao hotel com o chip - que encontrei numa loja a quatro ou cinco quadras escuras e com a atmosfera espessa preenchida de perigo e hostilidade, depois de tentar diversas outras tabacarias daquelas bem típicas do Marrocos, você sabe quais são, numa caminhada atenta nesse bairro escuro e de clima ofensivo – mas agora tranquilo, tudo seguro, Youssef no balcão, ligando para números que respondiam em árabe para habilitar minha linha. Me perguntou se eu era francês, pois achou meu sotaque como o de Paris, elogiou meu francês, eu disse, olha, valeu, mas tô aprendendo ainda. D’accord, d’accord. Ele disse que Casablanca era a Paris marroquina. Youssef, se é você quem diz, então é sim! Está aí um cara realmente adorável: Youssef. Como muitos marroquinos, tinha um ar hostil, de início, enquanto falava em árabe com o taxista que me deixara no Hotel Montparnasse tarde da noite, antes que se dirigisse a mim diretamente. Eles pareciam que falavam - juntos, em seriedade absoluta, numa cadência agressiva - sobre como iam me passar a perna e me fazer cair num esquema histórico...! Como iam me sequestrar, para o Ibn Battouta, para o Ali Baba, para o Moulay Sharif... e me fazer pagar toda a minha grana! Me deixariam sem passaporte no meio do deserto. Talvez eu ainda fosse escravo da família deles em algum lugar, e jamais seria visto pela minha própria família novamente. Rômulo, foi se aventurar nas arábias, não voltou mais pra casa. Youssef e o taxista falam tudo isso sabendo que eu não entendo a língua que falam, e então capricham no espetáculo, querem me meter medo, tá na cara! Me olham como se eu fosse um animal a abater! Podem falar o que quiserem, e até gritando, não vou entender um fonema sequer! Mas aí o taxista para de falar e vem até a mim, e é a pessoa mais gentil do mundo, e o olhar que me deu antes de entrar no carro para ir embora, depois de me ajudar como um pai ajuda um filho - pois eu era um gringo perdido na rua com uma mochila pesada nas costas - e me cobrar apenas 10 Dirham por cada corrida longa numa Casablanca noturna e deserta porque eu não consegui reservar um hotel antes no estado em que me encontrava e ele queria me ajudar - e eu não quis ficar no primeiro hotel em que ele me levou como sugestão, no centro da cidade, o hotel mais escuro e sombrio de todas as cidades do mundo, que me fez tremer de medo conforme entrava e dizer não, não, tchau para o balconista e voltar pro carro - não poderei jamais lembrar do olhar do querido taxista, antes que entrasse no táxi, sem querer chorar de emoção, porque era o olhar de alguém, sim, uma verdadeira pessoa, presente, viva, se importando, que gesticulava como se quisesse dizer, se cuida, toda boa sorte do mundo para você, e se precisar de mim, estarei em algum lugar dessa cidade podendo te ajudar, ou, se você não estiver lá, estarei pronto para ajudar um outro gringo perdido qualquer, ele também vai ficar com medo da minha cara de primeira, mas depois vai ver que eu sou bondoso. Tenho esse rosto pintado na minha mente e, sinceramente, espero vê-lo de novo, e então pagar 20 Dh... 30 Dh... por cada corrida, de bom grado. Na Europa, estaria pagando 100 Dh no mínimo! Para um olhar nada hostil como o dele: isso é bom - mas para um olhar nada, nada doce como o dele, sim! Deus abençoe os marroquinos: como podem combinar essas qualidades? Um dia estarei lá de novo, e vou entender isso. Vou entender também aquilo - que hoje já entendo. E Youssef: como muitos marroquinos, primeiro tem um ar hostil, o olhar igualmente; mas quando você fala com ele, desmancha-se num sorriso, e em total amabilidade torna-se seu amigo em menos de 10 minutos, quer te ajudar com tudo: se deixasse, me ajudaria a planejar o futuro, as finanças, organizaria a minha inscrição para um mestrado na França em 2018, me pautaria todo o projeto. Traduziria para o árabe clássico para mim, para que eu pudesse aplicar também para a Universidade Mohammed V em Rabat: e, quando vier passar o fim de semana em Casa [fala-se "Casá", em sotaque francês-marroquino], vem aqui pro Hotel Montparnasse. O quarto era o de número 14 no terceiro andar do hotel. Banheiro próprio! Água quente! Ideal para uma primeira noite, cansado demais de viajar. Ai, esse barulho incessante no quarto de cima que parecia alguém jogando uma moeda no chão, pegando a moeda, jogando de novo - sem parar, sem parar. Que jogo era aquele? Que intriga! Coisas aconteciam no quarto de cima. Isso é Casablanca. E você nunca vai saber o que acontecia no quarto de cima. Porque isso é Casablanca, meu irmão. Não apaguei as luzes para dormir: tinha medo do quadro na parede, todo escuro, com duas mulheres árabes com o rosto coberto, acho que uma delas estava fazendo chá, uma coisa cotidiana, mas elas o fazem como se fosse a coisa mais obscura da terra, e todo o clima do quadro era bem misterioso e sombrio: parecia vivo, e ameaçador, cores vermelhas muito fortes, pretos, azuis, principalmente pretos, toda essa coisa da noite árabe misteriosa e repleta de perigo. O povo árabe, também o povo berbere, eles nascem em perigo, imersos, banhados em perigo! Suas expressões faciais, seus olhares, a disposição de seus corpos, nos dá a imaginar que foram batizados ao nascer numa bacia de perigo, e de lá saíram preparados para a vida nesse lugar. O olhar daquelas mulheres, destacado no meio dos tecidos que escondem seus rostos, é o olhar da noite árabe profunda. Elas não têm medo algum, não têm medo do chá que estão fazendo, estão ambientadas ao perigo árabe, ao perigo Amazigh, e seu olhar o desafia. Tudo ali é perigo. No Marrocos, está tudo assim, em perigo, o tempo todo - mesmo um cházinho de menta, do mais cotidiano, que o herborista te oferece, fazendo-te sentar e inebriar-se com tantos odores, e quando você sai da loja não sabe quanto tempo passou. Li o primeiro salmo de Davi deitado na cama no Riad Casa di Carlo, após tomar banho, em Essaouira, o perigo no ar, e o conforto no peito, as Escrituras Sagradas abertas sobre mim enquanto eu começava a dormir como um bebê que começava a ser resgatado do abandono do mundo, como foi Moisés, eu aqui, resgatado pelas Escrituras Sagradas do imenso perigo marroquino. Lá no quarto, em Casablanca, um ano depois, o meu medo era que o homem árabe que apareceu para mim no quarto em Marrakech no meio da noite, me olhando com raiva e fúria, aparecesse de novo. Esse medo era projetado para tudo, para a cidade inteira, para o quarto, e para aquele quadro besta, que eu bem poderia ter na minha parede agora sem qualquer problema. Ou talvez não pudesse. Pois o quadro mais banal no Marrocos é ainda assustador, porque tudo deles está afundado nessa noite árabe de profundo perigo, em que coisas inimagináveis acontecem e eles não sentem medo algum. De onde vem tanto mistério? Como são intensos, os árabes e seus vizinhos! E meu sonho do Líbano me preenche como fumaça de incenso espiritual, como luz azul-escuro clareando lenta e pesadamente de um pôr do sol vagaroso e profundo ao som de Fairouz, que pode ser facilmente um nascer do sol e eu já não sei, pois acordei subitamente e não sei quanto tempo passou, estou no quarto andar bem diante de uma varanda de família imersa em silêncio, um rádio ligado ao fundo, televisão velha, um senhor com a roupa mais simples e digna de todos os tempos indo trabalhar. Como é olhar da janela no Marrocos e ver o Líbano! Eu vi o Líbano lá, na minha frente, e da minha frente ele nunca vai sair. Eu dormi com a janela aberta. Preferia o vento gelado daquela noite silenciosa que escondia os maiores mistérios marroquinos, o possível olhar investigador e estratégico dos vizinhos desconhecidos do prédio à frente para minha pessoa adormecida, a possibilidade de alguém escalar e entrar no quarto no meio da noite, tudo isso foi melhor do que ter o quarto todo fechado e ver o árabe de novo no meio da noite como vi em Marrakech no ano anterior. Seis horas de sono, janela aberta, dormindo só de cueca e sem camisa no frio - hábito antigo - usando um cobertor de lã, material ao qual tenho alergia, mas ok, era o único, sem wifi, sem 3G, sem sinal de telefone, sem água mineral, e com uma atmosfera que jamais vou esquecer em toda a minha vida. Posso chorar falando sobre o Marrocos. Posso também rir.
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